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Pequenos Romances

do universo feminino ...

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Mariana Climber é meu pseudônimo. Tenho 27 anos e nunca escrevi antes.
Fui encorajada a escrever pela professora de português (Elis) quando estava na 6ª série, mas só agora tomei coragem.

Mural

Mural
Mariana (29/6/2008)
Comentem aqui!
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Fabíola (15/7/2008)
Adorei. Preciso, ou melhor, necessito saber o que aconteceu com Flávia. Ela e Juliana têm que ficar juntas. Beijo.
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mary (16/7/2008)
gostei da sua escrita...linguagem sinestésica...
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Nayara (29/7/2008)
Amo de paixão essa história! Leio, releio, paro e sempre fico na expectativa do capítulo seguinte.Me prendeu do começo ao fim. ;)
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Fabíola (5/8/2008)
Que expectativa ! Mal posso esperar ! Um abraço.
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Dnsk (5/8/2008)
Uau! Adorei... quero o restante urgente!!! Rsrsrs.
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Fabíola Ramos Soares (20/8/2008)
Oi ! Então, já existe outro capítulo ? Que ansiedade !!! Beijo
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Michelle (25/8/2008)
Olá querida, soube do site atraves do grupo leslit e estou encantada com o conto, quero saber o restante dessa linga e emocionante viagem!! Me avisa assim que vc postar ok? Abraços e vc escreve muito bem!
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Dnsk (1/9/2008)
Oi, Mari. Tomara que sua correria acabe logo. Tô ansiosa. =P Beijão
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Fabíola (11/9/2008)
Oi ! E essa semana que nunca passa para a chegada do próximo capítulo ? rrsrsrsr Ansiedade !!!!!!!!!! Beijo.
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Fabíola (25/9/2008)
E esse domingo que não chega nunca mais ? rsrsrsr
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LivroPronto Editora (19/12/2008)
Olá! A LivroPronto Editora convida você, autor, para uma conversa sobre a publicação de sua obra. Escreva para nós! gabriela@livropronto.com.br Um grande abraço!
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Laura (15/4/2009)
Olá, primeiro devo lhe parabenizar se bem que isso não é novidade ja que todos ja fizeram isso, mas é bastante interessante espero que logo tenha mais novidade a ler. Continue assim e se precisar de empresária.. estamos aqui. rs Beijo e boa sorte!
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léinha (2/6/2009)
oi, adorei sua historia.fiquei muito feliz em saber que vcs duas ficaram juntas e que tiveram momentos felizes.estou ansiosa pra saber o resto da historia.bjinhos.que vcs sejam muito felizes.se cuidem ok.moças.
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Bem vindo ao Pequenos Romances

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...procurei no Google a definição para o tipo de texto que queria começar a escrever, não encontrei, então inventei o termo "pequenos romances" para a categoria das minhas histórias, contos de menos de 1o capítulos, sempre envolvendo duas mulheres, onde a marca principal delas é a força e determinação.

E não esqueça de deixar um recadinho aqui do lado dizendo o que achou ok?

 

  Capítulo 1 - O assalto

  Capítulo 2 - Dois caminhos

  Capítulo 3 – Uma nova realidade

  Capítulo 4 – Mais uma decisão impulsiva.

  Video

  Capítulo 5 - O tempo parou

  Capítulo 6 – Os dias passam devagar

  Capítulo 7 – Trinta e sete anos, trinta e sete dias

  Capítulo 8 – Uma nova viagem

  Capítulo 9 - Cara a cara

  Capítulo 10 – Enfim sós

 

TOMADA DE ASSALTO
Total:
11 capítulos

 

 

 

Junho

12

Capítulo 1 - O assalto
 

Era 18:45h, de um dia frio e nublado de maio, numa pequena fábrica de bolsas trabalhava Juliana, uma garota de 23 anos, recém formada em contabilidade, nossa protagonista. Ela trabalhava no setor financeiro da fábrica, que de tão pequena dividia espaço com o setor administrativo.

Seu turno terminara há 15 minutos, tarefas acumuladas a faziam ficar constantemente um pouco além de seu horário, sua mãe já havia falado algumas vezes que não era bom sair à noite do local, pois não era muito movimentado e a rua era mal iluminada.

Era uma grande sala numa casa transformada em mini fábrica, no local só restava ela e Claudia, a dona da empresa, o expediente já havia terminado mas a véspera do dia de pagamento era sempre cheia de trabalho.

A empresa funcionava nos dois andares, a sala administrativa ficava em cima, o acesso dava-se através de uma escada interna lateral. Havia também uma saída nos fundos, utilizada para o despacho das mercadorias.

A sala administrativa ficava no centro, toda rodeada por divisórias a meia altura e completadas com vidro até o teto, o que dava uma visão geral da dinâmica da fábrica.

Cansadas, elas trabalham compenetradas, um barulho na porta chama a atenção de Claudia e Juliana, que paralisam a ação como se congelassem a cena, erguem a cabeça de forma sincronizada e olham através do vidro na expectativa de saber quem está chegando aquela hora.

Três pessoas encapuzadas surgem, todos usam bala clava de motoqueiro e dois deles empunham armas. De forma rápida eles entram na sala administrativa, onde ninguém ainda esboça reação alguma, elas apenas acompanham com a cabeça a movimentação dos elementos, que anunciam o assalto. Um deles permanece na entrada da escadaria vigiando, os outros dois entram.

Quase como um reflexo e prevendo o que se sucederia, Claudia aperta um botão embaixo do tampo de sua mesa, chamando a empresa de vigilância. Ela precisa ganhar tempo.

- “Quem vai abrir o cofre e pegar a grana?” Questiona o assaltante olhando para as duas.

- “Não estamos com dinheiro no local, depositamos sempre a tarde.” Responde Claudia.

- “Olha, não queremos machucar ninguém, sabemos que a grana do pagamento está no cofre, mas se você não facilitar as coisas a mocinha aqui vai pagar o pato!”

-

Exaltado, o assaltante que comanda o assalto gesticula com a arma na direção de Juliana, o elemento que estava ao lado acompanhando o diálogo compreende a ordem e a agarra por trás, ele coloca uma arma apontada na cabeça, com o outro braço a segura pelo pescoço.

Juliana percebe que aquele elemento agressivo e encapuzado que a segura é na verdade uma mulher, instintivamente ela acredita correr menos risco por esse fato, e tenta persuadi-la a largá-la.

- “Não faça isso moça.” Tenta Juliana, com a voz trêmula e baixa.

Ela havia sido descoberta. Num sinal de afirmação de sua condição de comando, ela aperta a arma contra a cabeça de Juliana. Seu nervosismo cresce não por medo de falhar, mas porque ela não quer machucar a garota que está nos seus braços. A sala está quente, um fio de suor escorre pelo rosto de Juliana.

Após acompanhar o rendimento de Juliana, o líder joga a mochila nas mãos de Claudia.

- “Agora abra o cofre que fica bem atrás da sua mesa e coloque todo o dinheiro que tiver lá dentro, senão não vai sobrar nenhuma das duas pra contar a história, ta ouvindo?!”

-

Claudia pega a mochila rapidamente, se abaixa atrás da mesa e se esforça para acertar o segredo do cofre, os dedos escorregam de um lado a outro, em movimentos desordenados.

- “Anda logo com isso porra!” Esbraveja o assaltante, ao ver que ela tem dificuldade em acertar.

- “Calma moço... Já vai.” Claudia treme as mãos, um branco inoportuno a faz confundir os números.

Ela coloca todo o dinheiro que já estava separado para o pagamento dentro da mochila, de forma afoita.

Juliana não é muito alta, mas tem certo porte, ex-jogadora de handebol, atualmente atleta de final de semana, ela acredita que pode evitar que levem todo o dinheiro do ordenado. Ela trabalha na fábrica desde seu surgimento, há 4 anos, sabe o quanto foi difícil e o quanto todos dão duro para juntar o dinheiro. Quando Claudia se

vira para entregar a mochila, Juliana olha para Claudia e faz um movimento com os olhos, querendo indicar a arma do assaltante líder, ela quer reagir. E quer ajuda.

Nos longos segundos enquanto Claudia enchia a mochila, ela enfrentou um dilema, impedir que levem o dinheiro ou não reagir. Ela sabia o quanto era arriscado reagir, quantos policiais na TV instruindo as pessoas a nunca esboçarem reação num assalto, a instrução havia sido totalmente passada mas naquele momento a adrenalina deixava todas as verdades duvidosas.

Num gesto brusco, Juliana se vira e tenta pegar a arma, como reflexo a assaltante dispara, Claudia solta um grito com o nome da colega, o tiro a acerta Juliana no braço, ela permanece de pé, olha para o braço e aperta com força o ferimento, incrédula do que havia acontecido.

O elemento que estava na escadaria vem correndo ver o que aconteceu, estão todos na sala agora.

- “Ta tudo bem Claudia!” Responde Juliana.

- “Não te mete a engraçadinha não!” Grita o assaltante. “Eu sei que tem uns notebooks na sala lá atrás, eu quero também.” Ele olha para a assaltante que disparou e aponta para Juliana. “Leva ela contigo, vai lá buscar os notebooks, eu vou ficar de olho nessa aqui.” E apontando para o que estava de guarda ele continua. “E você volta lá pra entrada!”

A assaltante carrega Juliana pelo braço que segura o ferimento. Elas entram na sala e Juliana tira dois notebooks de dentro de um armário.

Gritos de “Larga a arma! Larga a arma!” rompem o silêncio, era a equipe de vigilância subindo as escadas.

Numa reação de agonia, ela tira o capuz e implora.

- “Por favor, me ajude a sair daqui, tem alguma saída pelos fundos?!”

Juliana emudece, ela não consegue enxergar uma criminosa no belo rosto da assaltante que a feriu. Quando começa a balbuciar alguma palavra ela insiste, a voz está com num misto de desespero e clemência.

- “Desculpe ter atirado em você, eu não tinha a intenção de te machucar, por favor me ajude!”

Não entendendo direito o porquê, Juliana resolve ajudá-la, ela via o desespero e arrependimento nos seus olhos, e num ato de cumplicidade ela responde.

- “Tem uma porta vermelha nos fundos, à esquerda, está destrancada.”

Ela corre até a porta vermelha e a abre.

- “Hey, pare aí!” – Ouviu o grito de ordem do vigilante, apontando uma arma em sua direção.

A porta já estava aberta mas por ímpeto ela virou-se para trás, o vigilante não titubeou com a reação e atirou.

Ela sai correndo, consegue fugir, os outros dois elementos não têm a mesma sorte e são rendidos.


 

 

 

Junho

26

Capítulo 2 - Dois caminhos
 

Seu nome era Flávia, e enquanto corria pelas ruelas escuras se perguntava como havia parado nesta vida.

Cresceu no interior de Minas, numa fazenda, assim como seus irmãos lidava com os animais e com a terra, nunca temeu nem o mais temperamental dos touros, e estava agora temendo até as sombras da rua.

O tiro havia raspado seu pescoço e o sangue escorria encharcando a gola do seu casaco azul, só pensava em como chegar a algum lugar seguro. Não sentia dor, não tinha idéia do que havia acontecido, ela só percebeu que o tiro havia a acertado porque sentiu o sangue descendo por sua blusa, morno e lento.

Juliana nunca havia sofrido um assalto, apesar de não ter medo de andar a noite sozinha. Sorte talvez, mas sempre andava atenta no que se passava ao redor.

Nasceu, cresceu e mora com os pais num bairro calmo em São José, sua irmã mais velha já havia saído de casa, estava casada e tinha dado um sobrinho-afilhado a ela, Lucas, com 2 anos agora.

Havia se formado no ano anterior em Ciências Contábeis. No ano que entrou na faculdade sua amiga Claudia havia resolvido abrir uma fábrica de bolsas e acessórios em couro, juntamente com o marido Maicon, e a chamou para trabalhar com a área financeira da empresa.

Claudia e Maicon eram casados há 16 anos, tinham um casal de filhos, um com 12 e uma com 15 anos, eram de uma pequena cidade agrícola próxima a Florianópolis. Após concluir os estudos foi trabalhar numa loja de roupas onde ficou até decidir abrir a empresa com o marido.

Até se formar trabalhou na roça ajudando seus pais, guardava ainda seu sotaque arrastado alemão, tinha belos olhos azuis e um sorriso cativante.

A empresa era pequena, 38 funcionários numa casa antiga, na cidade de Palhoça, a 20 km de Florianópolis. Era o segundo lar de Juliana, que se dedicava inteiramente ao negócio, como se fosse seu também.

Sua vida social se resumia a festas de aniversários de colegas, uma ou outra saída com suas amigas da época do colégio e passeios no shopping.

Era uma garota com sua beleza comum, discreta, não chamava a atenção das pessoas ao redor. Cabelos castanhos claros, nos ombros, um leve repicado dava um ar de garota reservada.

Estava agora dentro de um carro indo para o hospital. Não estava mais assustada, estava relembrando os acontecimentos daqueles longos minutos, as imagens passavam de forma frenética diante de seus olhos, ainda estava assimilando tudo, o braço começava a doer.

No hospital limparam seu ferimento, aguardava na enfermaria a chamarem para remover o projétil. As imagens já não transitavam confusas, agora apenas uma cena permanecia na sua mente, a da assaltante fugindo. O que havia acontecido com ela depois de ter saído por aquela porta?

Flávia chegou até uma rua um pouco movimentada, avistou um ponto de taxi, colocou a mão dentro do bolso, não tinha dinheiro. Resolveu pegar o taxi assim mesmo, pagaria quando chegasse em casa. Mas ela não poderia ficar em casa, seus comparsas iriam dizer onde ela morava em questão de horas ou até de minutos. Parou, andou até um canto pouco iluminado. “Vou pegar algumas roupas e vou para algum hotel barato.” Quando ia caminhar até o ponto se deu conta que estava ensangüentada, iria dar na cara. Tirou o casaco e colocou sobre os ombros, amarrou as mangas a frente, conseguiu esconder o ferimento e boa parte do sangue. Caminhou com passos rápidos até o taxi.

- “Boa noite, Vargem Grande por favor”.

- “Ok.”

-“Noite fria hein?” Ela nem o ouviu.

Pediu para o taxista esperar e correu pra dentro de casa, pegou uma bolsa de viagem e socou um punhado de roupas, objetos pessoais e todo dinheiro que mantinha em casa, pegou também um pequeno estojo de primeiros socorros. Voltou para o taxi.

-“Conhece alguma pousada... ou pensão barata no continente?”

-“Tem uma no Estreito, acho que não é cara não.”

-“Perfeito, me leve lá por favor.”

Sentia-se sem forças, suava frio, tudo que queria naquele momento era uma cama confortável.

-“Um quarto sim. Já vou deixar a pernoite paga pode ser?”

-“Ahan, trinta e oito reais.”

-“Quarto 202, o café é das 6:00h as 9:00h.”

Jogou a bolsa sobre a cama, sentou-se ao lado, estava exausta. Apoiou os cotovelos em cima dos joelhos e colocou as mãos na cabeça. Estava cansada demais para se desesperar com o destino incerto de sua vida. Tirou o casaco dos ombros e foi até o banheiro ver o ferimento, havia um verdadeiro rasgo em seu pescoço. Tomou um banho, improvisou um curativo, e literalmente desfaleceu sobre a cama.

Juliana não conseguia dormir, contra sua vontade teve que passar a noite no hospital, algo a incomodava, além da agulha do soro na mão. “Não vou conseguir dormir com essa coisa na mão.” Pensava ela. “O que aconteceu com ela?”

Acordou com o barulho de uma sirene, por um segundo achou que era mais um dia normal de trabalho, no segundo seguinte não reconheceu o lugar onde estava, olhou para os lados, sentiu o pescoço doer, foi como se o mundo tivesse desabado pela segunda vez.

-“O que eu fiz...” Murmurou.

O pescoço incomodava, ainda sangrava. “Não posso ir num hospital.” Estava fraca, se apressou para pegar o horário do café, comeu rapidamente e foi à recepção.

-“Bom dia, você sabe se tem algum posto de saúde aqui perto?”

-“Tem um mas não é muito perto, uns 3km daqui.”

-“Você poderia chamar um taxi?” Falava enquanto tentava disfarçar a atadura já ensangüentada no pescoço. Suas mãos tremiam.

Esperava sua vez para ser atendida no posto, sentada no canto da sala de espera, encostou o corpo na parede e deixou a cabeça também apoiada na parede, pensava nos seus próximos passos, precisaria ir para outra cidade ou até mesmo outro estado. Na sua frente duas mulheres conversavam sobre banalidades.

-“Tenho esse aqui de oito anos, que ta com febre desde ontem, e uma menina de doze.

- “Ah meus três filhos já estão crescidos, o mais moço cismou em fazer medicina mas não conseguiu entrar na Federal. Daí foi fazer medicina na Católica em Pelotas, eu tive lá ajudando na mudança.”

Pelotas, o destino a mandou para Pelotas.

O médico receitou alguns medicamentos e a encaminhou para suturar o ferimento, mas a alertou que seria melhor ela ir a um hospital porque aquela simples sutura a deixaria com uma cicatriz bastante saliente. Deu a desculpa de estar na cidade de passagem e que depois cuidaria melhor disso.

Voltou ao hotel, descansou um pouco e resolveu não perder mais tempo, guardou suas coisas e partiu. Pegou um ônibus para o Centro de Florianópolis, almoçou, sacou todo o dinheiro de sua conta bancária, comprou os medicamentos e se dirigiu à rodoviária.

Andava nas ruas se sentindo a pessoa mais procurada pela polícia, como se estivesse escrito “criminosa” na testa. Esquivava-se dos olhares dos transeuntes.

Embarcou no ônibus para Pelotas. Passando pela ponte Colombo Salles se sentiu mal por se dar conta que estava fugindo, da polícia e da sua vida. Novamente chegaria a um lugar totalmente novo. Estava deixando para trás sua casa, emprego, seus poucos amigos. E a garota com olhos tristes que a ajudou a fugir.


 

 

 

Junho

26

Capítulo 3 – Uma nova realidade
 

Claudia passou cedo na casa de Juliana e a levou na delegacia para prestar depoimento. Toda aquela burocracia só valeu a pena por um motivo: agora sabia o nome da garota que atirou nela: Flávia.

 

Os dias passaram-se lentamente naquela semana. Em casa, sem trabalhar, com todo tempo do mundo para pensar em todo tipo de coisas, dedicava boa parte desse tempo relembrando aqueles instantes, e pensava em Flávia.

 

Nos primeiros dias Juliana simplesmente pensava nela, sem se preocupar com os motivos que fizeram aquela mulher não sair de sua cabeça. Mas na semana seguinte ela voltou a trabalhar, ainda com o braço imobilizado, estava voltando à rotina aos poucos. Assim que entrou na empresa novamente, ela sentiu a necessidade de vê-la mais uma vez.

 

Aquela sensação a perturbou, Juliana nunca havia se relacionado com outras garotas mas já havia ficado confusa com seus sentimentos por outra mulher em outras ocasiões. Os confundia com amizade ou até mesmo com admiração.

 

O que ela não sabia era que o processo de aceitação já havia começado há muito tempo, todo aquele desinteresse pelos meninos de seu círculo social, seu ostracismo, e agora o pensamento constante em Flávia, estava ficando difícil lutar contra o inevitável.

 

Estar se sentindo atraída por uma mulher já era um problema para Juliana, esta sendo uma fugitiva da polícia que assaltou seu local de trabalho então parecia uma loucura.

 

A vida segue, os dias foram se passando e a rotina voltando no normal, mas as coisas não seriam mais a mesma para ela.

 

Em Pelotas Flávia tentava se acostumar com aquela rotina totalmente diferente, uma cidade estranha, um quarto estranho. Estava numa pensão na periferia, evitava sair de casa, ia ao supermercado à noite, comprou livros e revistas, ficava atenta aos noticiários. Entrava em pânico quando alguém puxava conversa ou a olhava nos olhos.

 

Criou a rotina de sair cedinho para correr, era o único momento que se sentia livre. Depois sentava no banco de uma pequena praça bastante arborizada, o sol não penetrava através delas, apreciava esta sombra.

 

Numa dessas manhãs, correu até a praça e sentou-se num banco. Observava as pessoas apressadas andando na área comercial.

 

Por complô do destino, naquela manhã viu vários casais caminhando nas proximidades, sentiu uma necessidade sem tamanho de estar com aquela garota que povoava seus pensamentos há 2 semanas.

 

Como faria para vê-la de novo? Não poderia colocar em risco a liberdade dela, não poderia simplesmente aparecer e dizer pessoalmente o que estava sentindo por ela.

 

Voltou correndo para a pensão, tomou um banho, ligou o rádio e deitou-se. Uma música com letra romântica que falava sobre estar longe de quem se ama estava tocando. Estava suscetível a qualquer coisa com apelo romântico, sentiu vontade de chorar, parecia que estava com o coração entalado na garganta.

 

Flávia estava prestes a completar 36 anos, sabia que sua vida estava dando uma guinada mas não sabia em qual direção, tinha certeza que havia ido num caminho sem volta e que sofreria as conseqüências. Nos 3 anos que estava em Florianópolis não teve nenhum relacionamento que durasse mais que 2 meses, sua última namorada havia ficado em Minas Gerais e ninguém havia balançado seu coração na Ilha da Magia.

 

Tinha um semblante cansado, cabelos castanho escuro, longos, caindo sobre os olhos meio que para se esconder de tudo e todos. Alta, um porte de mulher determinada, traços longilíneos, olhos brilhantes.

 

Era amante das coisas da terra, bióloga de formação mas trabalhava no setor administrativo numa empresa de importação, seu trabalho a entediava. Empurrava a vida com a barriga e não tinha coragem de correr atrás de suas paixões.

Até aquele dia.


 

 

 

Julho

04

Capítulo 4 – Mais uma decisão impulsiva.
 

Juliana morava a 3 quadras do mar, gostava de ir a tardinha até a praia caminhar um pouco, depois sentar numa mureta e olhar o mar, era seu momento de paz.


Gostava de tirar seus tênis e desenhar na areia com os dedos do pé.


Já havia anoitecido, ela continuava com o olhar perdido no horizonte. Imaginava como seria se reencontrasse Flávia, não saberia o que falar. “Ela nem deve lembrar de mim”. Pensava incrédula.


O celular tocou no bolso do casaco vermelho de moletom. Não reconheceu o número.


-“Alô?” Atende Juliana.

-“Juliana?”

-“Isso.”

-“Oi, não sei se você vai lembrar de mim, quer dizer, lembrar até deve lembrar... Meu nome é Flávia...”

- “Oooi! Como você ta?” Ela mal podia acreditar que estava falando com Flávia!

-“Oi moça, lembrou de mim então?”

-“Sim sim, claro, não tem como esquecer né.” Seu sorriso podia ser sentido mesmo do outro lado da linha.

-“Olha antes de qualquer coisa eu queria te pedir mil desculpas, se arrependimento matasse... Como ta seu braço?”

-“Ah ta tranqüilo, ta cicatrizando bem, removeram a bala no mesmo dia...”

-“Que bom...”

-“E você tomou um tiro também que eu vi, como estás?”

-“É. Tomei um tiro de raspão no pescoço, me incomodou um pouco, na verdade ainda me incomoda, mas ta bem melhor.”

“-Desde aquele dia eu fiquei me perguntando o que aconteceu com você depois que saiu por aquela porta...”

-“Pois é... Desde então minha vida virou um inferno, eu fugi...”

-“Deve ser péssimo ser fugitiva da polícia... Mas onde você conseguiu meu número?”

-“Não estou perseguindo você não...” Flávia fala sorrindo. –“Achei seu nome numa matéria sobre o assalto num jornal, daí joguei ‘Juliana Veloso Schlichting’ no Google e achei um site com seu currículo, e tinha seu número lá.”

-“Você é danada... Mas por que você queria falar comigo?”

Flávia emudece por um segundo, tinha medo da reação dela.

-“Você vai me achar uma maluca, mas desde aquela noite que eu penso em você, e... você não faz idéia do quanto eu queria falar contigo de novo, desculpe se estou te assustando mas eu precisava te ligar, tava me consumindo... Você ta aí ainda?”

-“Sim sim, eu... eu confesso que você me surpreendeu, mas não estou te achando uma psicótica nem nada parecido não.” Ela sorri.

-“Bom, então vou te falar mais uma coisa... eu resolvi me entregar para a polícia, não quero mais essa vida de medo que estou tendo, tenho medo de sair do quarto, de andar na rua, não quero mais isso não.”

-“Você ta decidida mesmo? Eu vi no jornal que os outros assaltantes que estavam com você vão pegar 4 anos de prisão...”

-“Olha eu quero recomeçar, acho que todo mundo tem direito a uma segunda chance, eu vou pagar pelo que eu fiz, se tiver que ficar 4 anos trancafiada eu ficarei, eu quero paz, quero minha vida de volta... E quero mais uma coisa... Sei que não estou em condições de te pedir nada, mas queria muito te ver de novo, claro que em outra situação, queria que você me visitasse, não sei para onde vão me mandar, mas dou um jeito de te falar depois... Estou pedindo muito?” Ela faz Juliana rir do outro lado.

-“Não, claro que não. Acho que você tem todo direito de recomeçar, acho legal você pensar assim... E ta prometido, te visitarei sim.”

-“Promete mesmo?”

-“Já que você é boa em me achar, me passe depois o local onde você ficará ok?”

-“Com certeza! Te passo sim.”

-“E levarei um bolo com uma serra dentro.”

-“Que nada, a moda agora é infiltrar celulares.”

-“Tá ok, depois eu decido o recheio do bolo.”

-“Tenho que desligar mocinha, vou ficar esperando você, vou contar com isso.”

-“Você vai ficar bem?” Perguntou Juliana, aquele tom de preocupação fez o coração de Flávia disparar.

-“Vou sim, acho que o pior já passou. Se cuida ta bom?”

-“Me cuido sim, fica bem”

-“Beijo moça.”

-“Beijo.”


Havia completado duas semanas desde o assalto, duas semanas infernais para Flávia, naquela manhã deitada na cama ouvindo uma música triste ela tomou a decisão de se entregar. Pegou o jornal largado numa mesinha, anotou o nome completo dela e foi até uma lan house tentar achar algum contato.


A noitinha criou coragem e ligou do seu quarto, era sexta-feira e a breve conversa que teve com Juliana a tinha feito ver uma luz a sua frente, decidiu viajar de volta a Santa Catarina na segunda-feira.

“Será que ela vai mesmo me visitar?”


Acordou no sábado radiante, cheia de disposição. Saiu para correr, no trajeto pensou que aquela seria a última vez que correria por aquelas ruas, que andaria naquela cidade. Comeu algo numa lanchonete, chegou à pensão, tomou um banho e deitou-se para ver TV. Ligou para seu primo Maurício, que morava também em Florianópolis, contando sobre a decisão que havia tomado e pedindo para contratar um advogado para ela.


No início da tarde alguém bate na sua porta, nem teve tempo de abri-la, dois investigadores da polícia, com coletes preto com letras amarelas abrem a porta.


-“Você é Flávia Medeiros?”

-“Sim...”

-“Somos do DEIC de Florianópolis, você é acusada de roubo, estamos aqui para levá-la para a delegacia, há alguma arma no quarto?”

Ela fica completamente sem reação, sua rendição havia sido antecipada de forma abrupta.

-“Não... Não tem não... Posso pegar minhas coisas?”

-“Pode. Nelson, pegue os objetos pessoais no banheiro.”

-“Minha bolsa está em cima da cadeira...”

-“Você está esperando alguém?”

-“Não, ninguém...”

-“Ok, pegou tudo?”

-“Ahan.” Olha ao redor, ainda meio letárgica.

Um dos homens carrega a bolsa dela, o outro vai até Flávia.

-“Moça temos que algemá-la, pode estender suas mãos?”


A viagem de volta no carro dos investigadores parece muito mais longa que a viagem de ida. É o fim da linha.


 

 

 

Julho

26

Video
 


 

 

 

Julho

29

Capítulo 5 - O tempo parou
 

Chegando a Florianópolis, Flávia se da conta que aquele clichê é realmente válido: Você só sente falta da liberdade quando não a tem mais. Agora ela não era mais dona de seus passos, de suas horas, dos seus planos.

 

Havia chegado por volta das 22 horas numa cela da triagem da central de polícia, até o momento havia sido bem tratada, dividia uma pequena cela de no máximo 15m2 com mais duas mulheres.

 

Uma já estava dormindo e assim permaneceu mesmo com sua chegada. A outra se chamava Bernadete e estava presa por tráfico, aparentava uns 20 anos e provavelmente estava ali pelo destino certo que as namoradas de traficantes tem, a cumplicidade que acontece mais cedo ou mais tarde com todas elas. Vestia um moletom branco maior que seu tamanho, um tênis surrado, mantinha as mãos dentro das mangas, estava sentada no chão.

 

            -“Como você veio parar nesse lugar?” – Pergunta Bernadete, ou Dete, com ela havia solicitado que a chamasse.

            Flávia fica em silêncio por um segundo, como se nem ela soubesse a resposta, olha para baixo, estava sentada no chão também, em cima de um papelão.

-“Participei de um assalto... Houve tiros e tudo... Me prenderam no Rio Grande do Sul."

-"Você tava foragida?"

-"É, no desespero me mandei pro sul, outra burrada minha... E você, o que fez?"

-"Me pegaram numa boca, era a boca do meu namorado, eu nem tava fazendo nada mas tava junto com aquele traste, daí já sabe né, fui junto."

-"Deu azar né?"

-"Azar e estupidez minha, maldita hora que fui dar ouvidos a ele... Larga esse empreguinho e vem me ajudar gata, dá muito mais grana, ele dizia. Um dia eu briguei com minha supervisora e larguei o emprego mesmo, sabe essas atitudes impensadas? Loucura minha né."

-"Sei como é..."

-"E você, tem cara de granfina, como foi parar nessa roubada?"

-"Nem eu sei.” Flávia sorri. “Acho que eu estava sem rumo, sabe? Foi a maior besteira da minha vida... Fiz amizade com meu vizinho, daí foi o mesmo papo, dinheiro fácil e tal..."

-“Dinheiro fácil sem cadeia só para os políticos corruptos né?”

-“É verdade... “ Flávia se levanta. “Ta frio aqui.”

 

Ela veste um casaco e senta numa das camas, põe os pés para cima da cama também, se cobre com o cobertor velho e cinza. Alguns minutos depois um dos oficiais traz pães e café para elas. Flávia come dois pães avidamente, estava desde o almoço sem comer. Logo depois ela adormece.

 

No dia seguinte, com a claridade de uns poucos fachos de sol que entram por uma pequena janela basculante, a realidade da situação parece agora ter contornos. A cela, as duas mulheres com constante ar de desânimo, os cobertores cinza, a vida cinza.

 

A mulher que antes permanecia dormindo hoje está acordada em seu canto, mas parece viver seu mundo próprio. “Bem que ela faz”. Pensa Flávia. “Queria poder esquecer onde estou e o que sou agora...”

 

            -“Como é o almoço aqui?” Pergunta Flávia.

            -“Não é tão ruim, tem até carne.” Ela ri.

            -“Será que ficaremos aqui por quanto tempo?”

            -“Da outra vez fiquei dezoito dias, mas acabei sendo liberada por falta de provas.”

            -“Tráfico também?”

            -“Aham”.

 

A preocupação no tempo que passaria na central de polícia na verdade era a pressa em ir para um local definitivo, para que pudesse pedir a visita de Juliana, ela não queria que Juliana entrasse naquele lugar degradante.

 

Seus pensamentos nela eram seu único alento, seus únicos momentos de esperança, tudo que ela mais queria era um abraço, desejava sentir os corpos unidos, sentir o calor, os braços envolvidos, repousar a cabeça no ombro dela, sentir seu cheiro de novo, ela não havia esquecido quando sentiu seu cheiro, no momento que a manteve sob seu poder naquela fatídica noite, era o melhor perfume que já havia sentido.

 

Não sabia quanto tempo ainda levaria para que isso se tornasse realidade, não queria pensar na possibilidade de Juliana não cumprir com a promessa, era o que a dava forças.

 

No meio da tarde Flávia recebe a visita de um advogado, contratado por seu primo Maurício, único parente e amigo que morava em Florianópolis. Flávia conta em detalhes o que aconteceu naquela noite, deixa claro que não participou dos outros assaltos executados pelo grupo. Dr. Afrânio já havia se inteirado do caso antes de fazer a visita, ele conta a Flávia que os envolvidos já prestaram depoimento e que agora que ela havia sido capturada todo o grupo iria ser julgado em no máximo um mês, inclusive ela.

 

Ele também contou que uns dias atrás a garota que levou o tiro havia sido chamada novamente para depor, pois havia a possibilidade de ser feita uma acusação de tentativa de homicídio para Flávia.

 

            -“Você deu sorte Flávia, a menina poderia ter complicado mais a sua vida, mas ela disse no depoimento da semana passada que sua arma disparou por acidente, devido a disputa pela arma, você provavelmente não será acusada de tentativa de homicídio.”

 

Flávia sorri aliviada, seu coração sorri.

 

 


 

 

 

Agosto

01

Capítulo 6 – Os dias passam devagar
 

Amanheceu chuvoso naquele dia, Juliana pegou o ônibus e chegou um pouco atrasada na fábrica, cumprimentou todos com seu bom humor habitual, guardou a mochila, tirou o casaco molhado e sentou-se em sua mesa de trabalho.

 

            -“O trânsito fica uma lentidão quando chove né?” Pergunta Cláudia.

            -“Nem me fale, meu ônibus hoje levou 50 minutos pra chegar aqui, em dia normal não leva mais que 35.”

            -“Café?”

            -“Se não for pedir muito...” Sorri Juliana.

            -“Saindo um café com três colheres de leite em pó e quatro de açúcar, acertei?”

            -“Quase, é o contrário...Obrigada Cláudia, amanhã eu faço o seu. Ah, Cláudia, tenho ortopedista hoje às 13h, posso ir direto do almoço para a consulta? Vou ver o braço.”

            -“Claro, quer que eu te leve?” Cláudia prezava por ela, tinha um carinho fraternal.

            -“Precisa não, é aqui perto, no Centro Médico, mas obrigada viu.” Diz Juliana enquanto lê seus e-mails.

            -“Por falar em braço, você viu na TV sábado que penderam a mulher que atirou em você?”

 

Juliana se vira surpresa e olha para Cláudia, emudecida por um segundo.

 

            -“...ela se entregou?”

            -“Não, a prenderam, já estava em Pelotas, devia estar indo para a Argentina.”

            -“Acho que não... Devia estar tentando se esconder.”

            -“Bom, parece que o julgamento já será mês que vem, espero que sejam condenados...”

            -“Sabe o dia?”

            -“Não disseram não....”

            -“Ah ta...”

 

Ela corre para a internet, abre um site de notícias locais atrás de maiores informações sobre a prisão de Flávia. “Prenderam? Ela disse que ia se entregar hoje.” Juliana não entende nada. Acha uma pequena notícia, mas não acrescenta quase nada, só dizia que Flávia Medeiros era foragida de um roubo a uma fábrica em Palhoça, havia sido capturada em Pelotas no sábado, e iria a julgamento no próximo mês juntamente com o restante do grupo, que já estava preso. “Onde será que ela está detida?” Ela até pensou em ir de delegacia em delegacia para procurar por Flávia, mas preferiu esperar por algum contato dela, conforme elas haviam combinado.

 

Teria que esperar para poder vê-la novamente, um mês talvez, a espera valeria a pena, Juliana ensaiava mentalmente como seria esse reencontro, se desconectava do mundo quando tinha esses pensamentos. “Será que poderei me aproximar? Será que poderei dar um abraço? Poxa um abraço... Acho que ela vai me achar patética... Ela é linda, tem uma voz tão suave... Como será seu sorriso? Ela deve ter um sorriso delicioso...” Suspirava.

 

Juliana nunca teve tantos conflitos e sensações diferentes dentro de si como naqueles últimos dias, qualquer pensamento em Flávia a deixava com borboletas no estômago. A paixão entrou em sua vida de forma personificada e, pela primeira vez, de forma consciente, era a primeira vez que estava apaixonada por uma mulher e sabia que o nome daquilo era paixão, com pitadas generosas de atração física, medo e ansiedade. Queria poder encontrar a bula ou o manual de instruções deste sentimento “novo”, mas nem no dicionário ela encontraria ajuda para lidar com isso.

 

Ainda mantinha os conflitantes pensamentos de “isso está errado”, “não posso ser assim”.

 

            -“Desde quando eu gosto de garotas?” Juliana se questionou após lavar o rosto na pia do banheiro, olhando para seu rosto molhado no espelho. Era tarde demais para lutar contra.

 

Os dias iam se passando lentamente para ambas, após uma semana detida Flávia recebe sua primeira visita: seu primo Maurício. Ele traz frutas, biscoitos e um pouco de carinho.

 

            -“Você não tem idéia o quanto sua visita me fez bem.” Despede-se Flávia.

            -“Desculpe não ter vindo antes, mas tentarei vir toda semana ok?”

            -“Você pode avisar minha mãe que estou aqui?”

            -“Ela já sabe, minha mãe contou.”

            -“Preciso dar um jeito de ligar para ela, a última vez que liguei foi lá do Rio Grande do Sul...”

            -“É, acho que ela está preocupada com você.”

            -“A primeira coisa que vou fazer quando estiver livre é ir para Minas visitá-la.”

            -“Opa! Vou junto viu? Bom, tenho que ir mesmo. Se cuide aqui.”

            -“Pode deixar, aqui é só o começo...”

 

Naquele mesmo sábado, Juliana recebeu uma visita também, Everton, seu amigo da época do colégio, que havia se afastado de seu grupo de amigos atual. Eles saem para fazer um lanche e colocar o papo em dia.

 

Ela já sabia que ele era gay e se sentiu a vontade para contar o que estava acontecendo, se sentiu mais aliviada após compartilhar sua situação. Ele a convidou para ir a noite numa danceteria GLS, para conhecer o meio.

 

            -“Vai ser legal, a danceteria é ótima.” Convida Everton.

            -“Não sei se devo...”

            -“Sério, você vai ver se fica a vontade nesse meio, se é isso mesmo que você quer, não tem nada a perder não.”

 

A noite eles chegam a danceteria, Juliana observa tudo e todos, mas aos poucos vai se acostumando e começa a se divertir e ficar a vontade.

 

Ela vê alguns casais de meninas e sente que é aquilo que ela quer para sua vida, se identifica com essa forma de relacionamento, aqueles olhares, a forma de trocar carinhos entre as meninas.

 

            -“Vou te apresentar umas amigas minhas ok?”

            -“Tudo bem.”

 

 Ele apresenta três amigas a Juliana, sendo um casal. Eles passam a dançar todos juntos no decorrer da noite. Everton cochicha algo a amiga desacompanhada, que se chama Fabiana, que se interessa por Juliana. No final da noite eles vão ao lounge e Fabiana se aproxima dela.

 

Elas conversam animadamente e Juliana nem percebe as intenções dela. A certa altura do papo Fabiana segura a mão de Juliana, que então se dá conta do que está acontecendo. Juliana é uma pessoa bastante educada e tranqüila, ela retira sua mão delicadamente e apenas sorri para Fabiana, que entende a mensagem.

 

Ela termina a noite decidida a lutar para ficar com Flávia, as coisas haviam ficado mais claras depois daquele dia.


 

 

 

Agosto

04

Capítulo 7 – Trinta e sete anos, trinta e sete dias
 

Após duas semanas detida, Flávia agora divide a cela com quatro mulheres, Dete permanece com ela e acaba sendo a pessoa mais próxima e às vezes até sua confidente. O assunto preferido era a infância, as suas origens, seu estado natal, pois Dete era do Paraná.

 

Numa noite insone de ambas, após Dete contar que seu irmão era gay, Flávia acaba contando também sobre sua orientação sexual, suas namoradas, seu atual objeto de desejo.

 

            -“Posso te contar uma coisa? Eu sabia desde o primeiro dia que você chegou aqui.” Diz Dete sorrindo.

            -“Eu dou muita bandeira?”

            -“Não, você é bem discreta, mas eu sou bem próxima do meu irmão, ele me ensinou umas técnicas para descobrir se a pessoa é.”

            -“Poxa, eu sou péssima nisso, me ensina?” Diz Flávia sorrindo.

            -“Eu peço para meu irmão ensinar pode ser?”

            -“Fechado.”

            -“Mas voltando ao assunto, você acha mesmo que essa menina vai querer algo com você? Até tiro ela tomou de você!”

            -“Certeza eu não tenho, mas eu liguei pra ela antes de ser presa, e sei lá, não sei se é sexto sentido ou coisas do coração, mas eu senti uma reciprocidade de sentimentos na voz dela, ela acabou me dando um fio de esperança e é nisso que estou me apegando.”

            -“Você vai procurá-la quando estiver livre?”

            -“Ela disse que vai me visitar quando eu estiver em definitivo cumprindo pena.”

            -“Você vai me contar se ele foi mesmo te visitar? Quero saber como vai acabar essa história de amor.”

            -“Conto sim, vou te mandar uma carta contando que ela foi me visitar e foi maravilhoso.”

            -“Vou torcer por vocês.”

 

Na terceira semana Flávia completou 37 anos, um dos oficiais improvisou um bolo, mesmo sem velinhas, que acabou trazendo por alguns momentos alegria na vida monótona que ela vem levando.

 

Juliana vai tocando seus dias cada vez mais decidida e se culpando menos pelas decisões que vem tomando. Saiu novamente com Everton, para um bar GLS, onde fez amizade com algumas meninas, estava cada vez mais a vontade com sua condição.

 

Seguindo nesta onda de determinação, ela toma coragem e acaba contando o que está acontecendo para sua irmã, três anos mais velha, num domingo em que foi visitá-la. Apesar de a primeira reação ser de surpresa, ela acaba oferecendo seu apoio para que ela corra atrás de sua felicidade, mas a enchendo de conselhos e ressalvas.

 

Elas estão sentadas nas cadeiras da sacada, seu sobrinho brinca na sala.

           

-“Pense bem nos seus próximos passos, cuidado para não se magoar nem magoar nossos pais. Você ainda não a conhece então vá com calma, ela pode não ser o que você espera.“ Alerta sua irmã, Ana Paula.

            -“As coisas aconteceram rápido demais, mas eu vou devagar sim, vamos ver no que vai dar.” Responde Juliana.

            -“Talvez você esteja tendo uma reação exagerada até porque está longe dela, pessoalmente as coisas são mais preto no branco.”

            -“Sim... Mas sabe o que mais me intriga? Mesmo no calor do assalto, aquela violência toda, eu estava apavorada com a situação mas senti uma coisa estranha no peito quando eu estava junto dela, não sei explicar o que foi, mas foi uma sensação boa, e depois que eu vi seu rosto eu não conseguia pensar em outra coisa, eu queria vê-la de novo, e quando ela me ligou eu perdi meu chão, foi como se todo sentimento que eu tenho por ela estivesse dentro de uma caixa e de repente tudo saltou para fora da caixa, e então eu pude reconhecer tudo, tudo aquilo que eu nem sabia o que era, de uma hora para outra estava bem claro, dançando na minha frente.”

            -“Eu também já senti essas coisas...” Sorri Ana Paula.

            -“Você é apaixonada pelo Henri?”

            -“Sim, desde o primeiro dia que o vi.”

            -“Também sentiu isso?”

            -“Cada sensação que você descreveu.”

 

A data do julgamento é marcada, acontecerá em duas semanas, as visitas do advogado se tornam mais freqüentes na reta final e toda a defesa já está argumentada. Flávia tem boas chances de ver sua pena reduzida por ser ré primária, ter curso superior e não ter sido acusada pelo tiro que disparou. Dr. Afrânio foi escolhido a dedo por Maurício, é um ótimo advogado criminalista e bastante experiente.

 

Dete já havia saído da central de polícia e agora Flávia não tinha mais sua companheira, passava os últimos dias lendo os livros que seu primo trazia.

 

Também carregava sempre em seu pensamento a lembrança do rosto de Juliana, sua voz, suas vontades, contava os dias para o julgamento.

 

Trinta e sete dias de detenção depois, finalmente chega o dia do julgamento. Flávia se veste com uma calça social preta e uma blusa azul, aguarda que os guardas a levassem ao tribunal, suas mãos tremiam.

 

Chegando no tribunal, ela encontra Dr. Afrânio e Maurício, que a confortam.

 

            -“Tá tudo bem com você?” Pergunta Maurício.

            -“Acho que sim, estou um pouco ansiosa, mas vou ficar bem.”

            -“ Sua defesa está bem montada, Dr. Afrânio vai tentar a pena mínima baseado no fato que você não tem antecedentes e sempre trabalhou honestamente.”

            -“Além de tentarmos alegar que você foi coagida por seu vizinho.” Completa Dr. Afrânio.

            -“Sim... sim...” Flávia balança a cabeça de forma afirmativa.

            -“Bom, só para repassarmos: fale tranquilamente, pode contar toda a verdade sobre aquela noite, deixe claro quem estava no comando da ação, que Rogério mandou você pegar a garota e ameaçá-la com a arma, que ouve reação da refém...”

            -“Não menciono o tiro certo?”

            -“Isso, você não toca no assunto. Diga também que depois de ir para a outra sala a garota a ajudou a fugir.”

            -“Isso é mesmo necessário?”

            -“Sim, isso mostrará que ela não sentia que você era uma ameaça, e é essa linha que seguiremos. Você não tem o perfil de uma criminosa.

            -“Certo..”

 

Quarenta minutos depois eles são chamados para a audiência, a decisão de seu destino irá começar.


 

 

 

Agosto

06

Capítulo 8 – Uma nova viagem
 

Durante o julgamento Flávia revê os outros dois homens que estavam com ela na noite do assalto, inclusive Rogério, seu vizinho. Ela relembra o dia que aceitou participar daquela empreitada, sente-se mal com sua decisão estúpida, se recrimina por ter sido tão ingênua e fraca.

 

O julgamento corre como esperado, Dr. Afrânio consegue concretizar seus argumentos, e é bem convincente.

 

Flávia volta à sala de audiência para ouvir o veredicto, senta-se com as mãos suadas entrelaçadas, tenta imaginar como seria sua vida se pegasse a pena máxima, passar anos sem poder andar livremente, vivendo atrás de grades e concreto, sem poder visitar sua família, não poder passar um final de semana na praia, não poder ver o mar, nem comprar um presente, ir num restaurante, num supermercado, coisas simples do dia-a-dia. Seria uma semi-vida.

 

Sai a sentença dos três réus: Rogério o líder pega cinco anos e meio, Osvaldo, que ficou de guarda, pega dois anos e Flávia pega dois anos também, com possibilidade de condicional após cumprimento de 1/3 da pena. Ou seja, seu destino estava decidido por pelo menos oito meses.

 

Logo em seguida foi anunciado para onde ela iria, e para tristeza de Flávia, era iria para uma penitenciária no Paraná, em Piraquara, a trinta quilômetros de Curitiba. Ficaria a 350km de distância de Juliana.

 

Apesar de ter sido mandada para outro estado, Dr. Afrânio e Maurício comemoram, pois haviam conseguido quase a pena mínima.

 

            -“Vou me informar direitinho onde fica essa penitenciária e vou te visitar, te prometo que pelo menos uma vez por mês eu estarei lá.” Diz Maurício após abraçar Flávia.

            -“Ainda bem que tenho você...”

            -“Você se saiu muito bem mesmo, essa penitenciária é modelo no Brasil, tem ótimas instalações, tem centros de trabalho, sem superlotação...” Conta Dr. Afrânio.

            -“Deve ser melhor que a cela que eu estava na central então né?”

            -“Sem sombra de dúvida.”

            -“Você sabe como funciona o sistema de visitas lá?”

            -“Isso eles vão te repassar quando você chegar lá, mas acredito que seja aos domingos.”

            -“Certo... Obrigada por tudo, sei que nos saímos super bem, o Sr. foi muito bem.”

            -“Já peguei vários casos semelhantes, acabamos aprendendo a lidar com eles.”

            -“Vão me levar agora?”

            -“Sim, levarão você daqui a pouco.”

 

Flávia se despede deles, abraça Maurício com um nó na garganta, que pede que ela se cuide lá.

           

            -“Ficarei na minha, pode ficar tranqüilo, e esse tempo vai passar rápido trabalhando.”

            -“Sim sim, os oito meses vão voar.”

 

Logo após o almoço Flávia viaja para a penitenciária. Ela viaja aliviada, vai organizando seus pensamentos no caminho, se despedindo de Florianópolis e das lembranças ruins dos últimos dias. Resolve encarar este momento como o início de uma pré-fase, um tempo que ela vai usar para esperar a poeira baixar, a espera pela segunda chance.

 

Ela chega a tardinha ao local, realmente parece ter uma boa estrutura, recém reformada, paredes cor salmão, limpas, apesar de ser o último lugar que ela queria estar, parecia um ambiente razoavelmente bom.

 

Passa pelo procedimento padrão, recebe duas camisas azuis claras, para ser usadas como uniforme. Senta numa pequena sala onde uma agente prisional repassa as regras e costumes do local, ela informa também o que mais importa a ela, as visitas são sempre aos domingos, das 11h às 16h.

 

Depois ela é levada ao local onde irá passar os próximos meses, sua cela. O local está desocupado, ela ficaria ali sem companheira de cela, apesar de ter um beliche. Além da cama, tem uma pia, uma pequena parede e atrás o vaso. Do lado oposto do beliche tem um pequeno armário de duas portas laterais, abaixo uma mesinha e uma cadeira.

 

            -“A saída para o pátio é as 9h, até a hora do almoço, que é meio-dia em ponto.”

            -“Certo. Depois eu posso conversar com alguém sobre trabalhar em algum centro aqui?”

            -“Vai vir alguém do departamento pessoal conversar com você nos próximos dias, neste folheto que você recebeu tem todas as atividades desenvolvidas, já vai escolhendo a que você tiver mais aptidão.”

            -“Ah ok, vou sim, obrigada.”

            -“Daqui a pouco vão trazer algo para você jantar, ok?”

            -“Obrigada.”

 

A primeira noite no presídio é longa, Flávia demora para adormecer, apesar do cansaço do dia e da viagem. Seus pensamentos são numerosos e se confundem, mas os olhos pesam. “Um dia a menos...”


 

 

 

Fevereiro

18

Capítulo 9 - Cara a cara
 

No dia seguinte Flávia questiona sobre a possibilidade de fazer um telefonema, ela é então encaminhada para a sala de visitas onde tem alguns telefones, ela tem 2 minutos.

 

Liga para Juliana, que demora a atender, o que aumenta sua ansiedade em voltar a falar com ela.

            -“Oi oi!” Atende Juliana.

            - “Juliana? É a Flávia... Pode falar agora?”

            -“Flávia! Claro! Bom que você ligou, como você está?”

            -“Bem, cheguei ontem no presídio, e agora estou cumprindo minha promessa, mas só tenho dois minutos.”

            -“Para onde você foi menina?”

            -“Paraná... Nem pude escolher o hotel...” Ela sorri.

            -“Isso não é problema, o Paraná é aqui do lado, você tem o endereço?”

 

Um sorriso se abre rapidamente, Flávia se alegra em perceber que o interesse de Juliana permanece vivo. Ela passa o endereço prontamente e avisa que as visitas são aos domingos.

 

            -“Assim que for possível te visitarei, é minha vez de cumprir a promessa.”

            -“Você não tem idéia do quanto ficarei feliz se você vier...” Flávia está radiante.

            -“Sei que você tem que desligar, mas queria que você soubesse que eu também tenho pensando demais em você, sabia?” Diz Juliana com uma voz terna.

            -“Não mais que eu... Estão me sinalizando, preciso desligar, fica bem.”

            -“Se cuide, beijo.”

            -“Beijos mocinha.”

 

Flávia vai para seu primeiro banho de sol, tenta não chamar a atenção, permanece quieta, senta num banco, observa a dinâmica do local, cada rosto que ela vê tenta adivinhar por que ela foi parar lá.  Resolve correr um pouco, depois senta novamente e continua sua discreta ambientação.

 

No decorrer da semana uma interna senta ao seu lado e inicia uma amizade, seu nome era Adriana, destino traçado: seis anos por assalto a mão armada numa lotérica.

 

            -“Estou completando três anos aqui, tentando sair na condicional faz dois meses, a qualquer momento posso receber a melhor notícia da minha vida...” Sorri Adriana.

            -“Como você passou esses três anos?”

            -“Trabalhando, os dias passam muito mais rápido, e mantém a mente saudável.”

            -“Não vejo a hora de começar a trabalhar também... Em qual área você trabalha?”

            -“Na fábrica de prendedores de roupa, é o local mais tranqüilo, já passei por outros setores e esse é o mais sossegado, e é onde trabalha as meninas mais gente fina também.”

            -“Hum... Acho que vou tentar esse setor então.”

            -“Tenta sim, você nem vai se sentir numa penitenciária.”

            -“Isso seria perfeito...”

 

No primeiro domingo após sua entrada na instituição Flávia espera ansiosamente o horário de visitação, mas ninguém aparece. Na semana seguinte ela inicia o trabalho na montagem dos prendedores de roupa, onde acaba fazendo mais algumas amizades.

 

Outro final de semana chega, o horário de visitação inicia, chega o horário do almoço e ansiedade de Flávia se transforma em tristeza, prefere comer na cela, não quer conversar com ninguém.

 

Alguns minutos depois a carcereira para a sua porta.

 

            -“Visita esperando você no salão principal.”

 

Por mais que ela tivesse um imenso apreço por seu primo Maurício, ela rezou para que não fosse ele. “Tem que ser ela...”

 

Só não sai correndo porque é contra as normas do local.

 

Adentra o salão e começa a procurar por sua visita, enfim o rosto que ela desejava ver, Juliana estava sentada a mesa, olhando para a porta errada, esperando ansiosa. Flávia se aproxima e coloca a mão em seu ombro.

 

            -“Procura por mim?” Ela sorri.

 

Juliana se levanta rapidamente, o coração mais que disparado, ela hesita em abraçá-la, não tem certeza se tem essa liberdade. Flávia a abraça, sussurra em seu ouvido:

 

            -“Quem bom que você veio...”

 

Flávia sentiu um arrepio daqueles que fazem a gente comprimir os ombros, borboletas, mariposas e todo tipo de inseto dançavam balé em seu estômago naquele momento. Aquele perfume... Mal podia acreditar que estava novamente cara a cara com a garota que mudou sua vida, queria ficar ali abraçada para sempre.

 

Corpos separados, não sabiam o que falar, tinham medo de estragar aquele momento, estavam extasiadas.

 

            -“Quer sentar?” Convida Flávia.

            -“Eu... Desculpe, não consegui chegar antes, o ônibus atrasou, e a rodoviária é um pouco longe...” Juliana tenta balbuciar palavras que façam sentido.

            -“Você está aqui na minha frente agora, isso é o que importa Juliana... Esperei tanto por esse momento... Tipo, desculpe se estou te assustando, eu realmente estava fazendo risquinhos na parede contando os dias até o próximo domingo...”

 

Juliana constata o que ela já supunha: Flávia tem o sorriso mais lindo que ela já viu.

 

            -“Ju.”

            -“O que?”

            -“Pode me chamar de Ju.”

            -“Ah ta... Ju. Vou tentar me acostumar, acho teu nome tão bonito.”

            -“Então eu deixo você me chamar de Juliana.”

 

“Será que estou sendo patética?” Teme Juliana em pensamento.

 

            -“Como foi a viagem?”

            -“Mais longa do que eu gostaria, parece que levou 2 semanas...”

            -“Tá com fome?” Flávia contempla seu semblante tímido, quase não acreditando que ela realmente está ali.

            -“Não. Quer dizer, acho que sim, comi tão cedo. Mas eu trouxe sanduíches para nós.”

            -“Vamos comer lá na minha cela? É mais tranqüilo.”

            -“Pode ser, tem tanta gente falando ao mesmo tempo aqui né?”  Ela sorri.

 

Seguiram pelo corredor, um silêncio gritante imperava.


 

 

 

Abril

02

Capítulo 10 – Enfim sós
 

-“Você fica sozinha aqui?” Pergunta Juliana, olhando ao redor.

            -“Sim, fui classificada como interna de alta periculosidade.”

            -“Nossa, sério?”

            -“Não, não, estou zuando você, é que não apareceu ainda ninguém para preencher essa vaga...” Ela ri da cara de assustada de Juliana.

            -“Ah sim...” Ela ri também.


             -“Você levou um tiro no pescoço aquele dia?” Pergunta Juliana, percebendo a cicatriz.

            -“Sim, de raspão, mas sangrou muito, foi difícil esconder o sangue para chegar até em casa aquela noite.”

            -“Me conta o que aconteceu naquela noite?”

            -“Ih é uma longa história, posso contar outra hora?”

            -“Claro, é que imaginei tantas possibilidades...”

            -“Acabei me virando sozinha, tive sorte que a bala passou de raspão, nem fui ao hospital por medo de me descobrirem.”

            -“Ninguém cuidou de você?”

            -“Fui a um posto de saúde no dia seguinte, mas fiquei limpando e fazendo os curativos depois.”

            -“Nossa, isso deve ter incomodado né?”

            -“Bastante... Mas agora ta cicatrizando, já passou... Desculpe pelo seu braço...”

            -“Ah não, tá tudo bem agora também, a bala não atingiu nada demais, dei sorte também.”

            -“Sinto muito mesmo, eu não tinha intenção de machucar você, foi por reflexo, eu estava mais em pânico que você...

 

Juliana levanta a manga da camisa e mostra a cicatriz.

 

            -“Viu, ficou uma marquinha, ainda está cicatrizando, mas não vai ficar feio não.”

            -“Me culpei tanto por ter machucado você, com certeza a última coisa que quero é te fazer mal, prometo compensar o mal que te fiz.”

 

Flávia senta na cama, enquanto Juliana senta numa cadeira, abre a mochila e tira os lanches. Enquanto separa os lanches, Flávia sorri percebendo o quanto ela está nervosa, levanta e se aproxima dela.

 

           

            -“Vem cá.”

 

Flávia encara Juliana com um sorriso confortante.

 

Juliana se levanta, Flávia segura a mão dela com suas duas mãos, a leva até sua boca.

 

            -“Eu desejei você cada segundo desde aquele dia, e agora nem acredito que você está aqui comigo.” Sussurra Flávia.

 

Ela leva sua mão até a nuca de Juliana e entrelaça seus dedos pelo cabelo dela. Corações disparados, Juliana treme.

Flávia percebendo o nervosismo dela, desiste de beijá-la naquele momento, e a abraça.

 

O abraço dura alguns segundos e Juliana agora está se sentindo segura do que deseja, ela afasta seu corpo e fixa seus olhos azuis nos olhos de Flávia, seus olhos pedem que a beije.

 

Flávia aproxima seus lábios aos de Juliana, que faz o movimento final em direção ao tão esperado beijo.

           

Um beijo lento, sem pressa de acabar, tão desejado e idealizado por ambas, principalmente naquelas noites em que se deitavam para dormir mas o pensamento voava longe e as fazia demorar para adormecer, mas adormeciam esperançosas e com a imagem da garota dos seus sonhos infiltrando nos seus sonhos.

 

Por um momento esqueceram onde estavam, e até quem eram. Juliana vivia um momento mágico, o primeiro beijo com paixão de sua vida, seu peito vibrava, o coração queria fugir do seu corpo. Deslizava suavemente os dedos pela nuca de Flávia, que segurava o corpo dela firmemente, ora a puxando em sua direção, ora escorregando suas mãos pelas costas dela.

 

Elas afastam suas bocas, Flávia olha e sorri, o sorriso mais gostoso e confortante que Juliana havia visto. Ela também sorri.

 

            -“Você é linda.” Juliana ainda não acredita que está ali, que a beijou.

 

            -“Vem cá, senta aqui comigo.” Flávia a chama para sentar com ela na sua cama, pegando na mão dela.

 

Flávia se senta encostando suas costas na parede, Juliana senta a sua frente, de costas para ela.

 

            -“Pode encostar em mim, não mordo não...” Ela sorri.

 

Juliana então se ajeita encostando suas costas no peito dela, Flávia a abraça.

 

            -“Assim consigo sentir teu cheirinho.” Diz Flávia, dando um beijo sem pressa no pescoço de Juliana.

 

            -“Espero não ter te assustado.” Diz Flávia.

 

            -“Não assustou não, eu costumo falar mais, mas é que é tão surreal tudo isso, é tudo tão bom demais para ser verdade...”

 

            -“Daí você fica com medo de estragar tudo?”

 

Juliana ri, ela se vira e se inclina para ficar de frente para Flávia.

           

            -“Se algo der errado, então antes preciso fazer uma coisa.” Diz Juliana.

 

Ela então segura carinhosamente o rosto de Flávia e a beija. Um beijo mais ávido que o primeiro, com paixão, quase um desespero.

 

            -“É muito melhor do que o melhor que eu pude imaginar.”

 

            -“O que, o beijo?”

 

            -“É sim, e olha que eu imaginei muitos, de todas as formas.” Responde Juliana.

 

            -“Eu tinha medo que você não gostasse de mim sabia?”

 

            -“Quando?”

 

            -“Sempre. Mesmo quando você disse que vinha me visitar, ainda pensava que talvez quando você me visse lembrasse que tinha esquecido o ferro de passar ligado em casa, e saísse correndo daqui...”

 

Juliana sorri, faz uma pausa.

 

            -“Nos primeiros dias eu não entendi o que se passava comigo, não pensava na empresa, não pensava na polícia, só sua imagem vinha a minha mente. Mas daí achei que era alguma forma de trauma, ou como disse o psicólogo que Claudia me fez ir, um estresse pós traumático.”

 

            -“Pode mandar a conta do psicólogo para mim depois tá?” Sorri Flávia. “Sim, mas continue o que você estava falando...”

 

            -“Eu realmente acreditei que você não saia dos meus pensamentos porque a coisa toda foi meio tensa e violenta, vi você saindo e levando um tiro, ficava pensando o que havia acontecido com você, se estava bem.”

 

Flávia dá aquele sorriso com o canto da boca, daqueles de felicidade que não se conteve.

 

            -“Você deve estar me achando uma tagarela agora né?” Pergunta Juliana.

 

            -“Não, a história está boa, estou gostando, pode continuar.”

 

            -“Então ta. Tipo assim, mas os dias foram passando e nada de você sair da minha cabeça, daí pensava ‘como pode ela fazer assaltos e tal, tão bonita, tão... tão linda’, foi assim que fui me dando conta que tinha algo mais nessa história.”

 

            -“E quando foi que você teve certeza?”

 

            -“Quando saí com meu amigo, o Everton, ele me levou numa balada GLS, tipo assim, eu já tinha me dado conta que sentia algo diferente por você, mas naquela noite uma menina meio que deu em cima de mim, e nem cogitei a possibilidade de acontecer algo, porque a única pessoa que eu queria naquele momento era você...”

 

            -“Juliana, você nunca ficou com outras meninas antes?” Questiona Flávia, surpresa.

 

            -“Ficar não fiquei não, mas acho que já fui a fim de outras meninas.”

 

            -“Foi seu primeiro beijo...”

 

            -“Foi sim, fui muito mal? Pode ser sincera.” Interrompe Juliana.

 

            -“Olha, as meninas que você não ficou perderam o melhor beijo do mundo.”

 

            -“Eu to falando sério.”

 

            -“Eu também, você me deixou sem ar garotinha! Mas confesso que estou muito surpresa que fui sua primeira garota, acho que se eu soubesse disso teria perdido as esperanças naquele dia mesmo.”

 

            -“Eu acabaria te procurando sabia? Eu já estava inconscientemente te procurando, assistindo assiduamente os noticiários locais, procurando informações na internet, nos jornais... Eu até descobri seu nome completo e que você é de Minas Gerais.”

 

            -“Sério?”

 

            -“Você me arrebatou dona Flávia.”

 

            -“Percebo... Espero não ter te decepcionado... E aí, vai continuar beijando meninas?”

 

            -“Só se você quiser continuar querendo meus beijos.”

 

            -“Que tal agora?”

 

E Juliana a beija, dá vários pequenos beijos, sorrindo.

 

            -“Não tem problema se alguém passar e ver a gente?” Questiona Juliana, preocupada.

 

            -“Não tem não, as meninas aqui levam seus namorados para suas celas.”

 

            -“E namoradas?”

 

            -“Só eu trago minhas namoradas.” Ela sorri.

 

            -“Mesmo??”

 

            -“Se você aceitar ser minha namorada será a primeira.”

 

            -“É agora que eu me ajoelho e peço você em namoro?”

 

            -“Não, é agora que você tem a chance de sair correndo.”

 

            -“Tem uma placa de “Proibido correr nos corredores” na entrada.”

 

            -“É só para as internas.”

 

            -“E se eu quiser namorar com você?”

 

            -“Aí você responde minha pergunta.”

 

            -“Aceito, lógico que aceito, mas você é maluca de querer namorar com uma novata, é por sua conta e risco.”

 

            -“Que riscos posso correr dentro de uma penitenciária?”

 

            -“De conhecer alguma presidiária interessante.”

 

            -“Você contou que saiu aquela noite e nem pensou em ficar com a outra menina, é mais ou menos isso que acontece comigo também, é como se todas as outras mulheres se tornassem totalmente desinteressantes, você fica Blem! Blem! Blem! na minha cabeça.”

 

            -“Espero que isso seja uma coisa boa.”

 

            -“É sim, mas é muito melhor você aqui na minha cela do que na minha cabeça.”

 

            -“Prometo vir sempre que possível tá?”

 

            -“Só quando for possível mesmo, não quero você se prejudicando por minha causa, e eu tenho umas economias lá com meu primo em Florianópolis, vou falar com ele para que ele compre as passagens para você certo?”

 

            -“Não precisa não, como você pôde conferir, eu tenho um emprego e tal...”

 

            -“Não, deixe eu te ajudar, se eu pudesse te visitava, mas só daqui algum tempo.”

 

            -“Bem lembrado, quando você sai daqui?”

 

            -“Peguei dois anos, o que foi muito pouco comparado à outros casos semelhantes...”

 

            -“Nossa, dois anos? É um bom tempo né?”

 

            -“É sim, mas tenho boas chances de sair na condicional em oito meses.Na verdade sete meses e meio agora.”

 

            -“Melhorou...” Elas sorriem.

 

            Flávia a abraça, dá vários beijos no pescoço dela.

 

            -“Me espere, por favor...” Ela sussurra.



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